E por que o Magic, ao contrário de outros jogos, é diferenciado sob essa lógica? Porque é dotado de infinitos elementos de mudança: o fato de o Magic nunca se estabilizar – seja pelas regras, sempre alteráveis, seja pelo layout e o conteúdo das cartas, modificadas a cada grupo de anos – permite que a saliência, o acento de diferença, se mantenha. A recordação remota de quando se usava Academia Tolariana existe apenas porque não se pode mais usá-la. O bloco de Odisséia – o bloco inesquecível dos anos em que comecei a jogar Magic, em 2001 – é recordável porque não é o bloco de Zendikar, não é o bloco de Ravnica. E, sobretudo, porque o Magic é cruel e perigoso ao se fazer encantador. Mexe com as paixões.
As mecânicas do jogo já são amplamente debatidas; os fundamentos de estratégia que bebem da Teoria dos Jogos; a riqueza de opções de articulação entre as cartas; os limites financeiros e de formato – e Legacy e Vintage, enquanto eternos, são da mesma forma oscilantes nas forças e fraquezas (e vale lembrar o exemplo de “Ataque surpresa”, de 1998, que ganhou força diferente após quase 15 anos por causa de Emrakul, bem mais recente). Contudo, a relação do jogador com a memória afetiva – o memorialismo inescapável do jogador que cresce com o jogo – não possui o mesmo espaço. Infelizmente. Se o Magic não fosse cambiável e infinito, não faria sucesso nenhum. Nem mesmo no lançamento, que superou quaisquer expectativas.
Comecei a jogar Magic em 15 de novembro de 2001. Lembro da data com precisão porque, em viagem do feriado, ganhei de presente o primeiro deck selado de Odisséia na livraria Sodiler, no Rio Sul – morava em Nova Friburgo, então mesmo a viagem ao Rio de Janeiro já contava como um acontecimento singular, diferente. A primeira carta que saiu: “Braids, assecla da cabala”. Lembro que, ao encarar a fantástica ilustração de “Rugido do vorme”, de Kev Walker, pensei em Omastar, o pokemón fóssil. Lembro da beleza das montanhas de Odisséia, que ainda acho as mais belas do Magic (junto com as de Miragem, de John Avon). Obviamente, na época jogava muito Magic na escola, mesmo sem precisão, mesmo sem remoto conhecimento da complexidade do jogo. Aprendi os fundamentos em janeiro de 2002, no chão vermelho do prédio de Rio das Ostras em que passei anos de veraneio, com o autor dos artigos históricos deste blog, Bart Rabelo – um amigo que mantenho até hoje com o respeito de professor. Lembro que Bart escreveu uma lista com cada expansão do Magic até Julgamento (guardei esse papel por muitos anos; acho que ainda está em Friburgo em algum lugar).
Não esqueço de nada sobre Magic porque as circunstâncias da vida não se mantêm. Estão frescas na memória as relações de desapontamento de adolescente que, aos 14, 15 anos, não detinha a autonomia financeira para investir em papel desenhado. O fascínio de um fichário de Legado de Urza, criado especialmente para o Magic – enquanto guardava as minhas cartas em um fichário preto comum. O fascínio de enfrentar as dual lands de um jogador veterano e não entender uma palavra do italiano impresso. O fascínio de usar shield – negociei 80 protetores verdes em 2002 ao fazer o copidesque de várias matérias da escola para um aluno preguiçoso.
Na época, sem grandes ocupações, jogava muito Magic. Jogava Magic Workstation com o Bart após as aulas, na hora do almoço – isso em 2005. Jogava nas lojas de Magic de Friburgo, que nasciam e morriam rapidamente, como as oscilações de demanda do mercado definem. Depois, fiquei quatro anos sem mexer nas cartas. Retornei brevemente em 2009, quando resolvi gastar uma grana acumulada de estágios para comprar sonhos remotos – como “Dark confidant”, paguei R$ 60 na quadra. O Magic adormeceu novamente e renasceu como memória no fim de 2013, quando pensei, de fato, em usar o benefício da independência financeira para realizar (de novo) outros sonhos remotos – como comprar um fichário estilizado e a quadra de “Chain lightning” em italiano. O capitalismo é o melhor sistema lógico para realizar sonhos e concretizar frustrações.
Não jogo desde janeiro. A minha coleção está cuidadosamente guardada em fichários exclusivos, protegida em folhas de plástico. Tenho deckboxes de várias cores; vários shields; uma coleção respeitável e relativamente custosa. Penso às vezes em usar parte das economias para fechar o sonho absoluto de comprar as 40 dual lands – e abandono a ideia porque, hoje, é mais barato investir em um apartamento do que comprar o pacote. O Magic atualmente está financeiramente impraticável, em certos aspectos, porque é memória incrível, e a memória é excelente valor agregado. Não acho que voltarei a jogar com regularidade em algumas décadas – porque vivo rotina complexa de compromissos e viagens. Mas não penso jamais em largar a coleção – mesmo que seja para investir em um apartamento. E isso é reflexo do poder mágico do Magic.
O jogador clássico de Magic, pré-adolescente, sobrevive a metamorfoses de vida enquanto o jogo prossegue na História. Toda metamorfose deriva da mudança, da diferença entre dois estados – o inicial e o final. Comecei a jogar com 12 anos. Estou com 25. Tenho hoje a liberdade de jogá-lo com a frequência que desejar. Não jogo. Mas, de forma inexaurível, jamais deixo que se perca, na nostalgia, o momento em que retornei pra casa, em 2004, com as quatro “Força de vontade” que pechinchei por R$ 20. O fato de que olhei e reolhei e reolhei as cartas no elevador, no caminho de casa, no quarto, dopado pelo encantamento. A persistência da memória – que deriva do quadro célebre de Dalí – dá a justa medida da saliência que faz do Magic eterno, incorruptível, infinito. E inesquecível, até adormecido no espectro dos sonhos. Uma hora, sempre acorda.
Lucas Calil é jornalista, Mestre e Doutor em Linguística pela UFF. Trabalha como pesquisador da Fundação Getúlio Vargas.

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