O Despertar
O ano era 1993. Um jovem designer de jogos estava nervoso, pois iniciaria as vendas de sua nova criação em um grande evento de jogos no Texas, EUA. Ele havia acabado de completar 30 anos e não fazia a menor ideia de que aquela seria a sua obra-prima. Mas afinal de contas, o quê havia de tão viciante num jogo com cartas de 63mm x 88mm, cada uma pesando apenas 1,8 gramas?
Richard Garfield é um cara com “pedigree”. Seu tataravô foi presidente dos EUA e seu tio-avô inventou o clipe de papel. Se formou em computação científica e depois buscou especialização em matemática combinatória, portanto vamos deixar uma coisa clara desde o início: ele era um NERD de marca maior. Dos nerds mais nerds que se pode encontrar por aí.
Como a maioria dos nerds, ainda adolescente ele se apaixonou pelo jogo de RPG Dungeons & Dragons, hobby que foi alimentado com mais força nos anos em que viveu no ambiente acadêmico das universidades. Um dos maiores problemas de todo grupo de RPG é ter algo para fazer enquanto espera-se todos os jogadores chegarem para começar a aventura, e foi exatamente isto que inspirou o jovem Richard, então com cerca de 20 anos. Ele visualizou um jogo rápido, competitivo, para ser jogado entre duas ou mais pessoas, com toda a temática de fantasia fantástica medieval característica do RPG Dungeons & Dragons. Ele idealizou este como um jogo de cartas, um duelo onde cada jogador seria um mago poderoso e o seu baralho seria seu grimório de magias, permitindo a invocação de criaturas para derrotar seus oponentes em combate, com conjuração de feitiços como bolas de fogo, raios de eletricidade ou invocações de força divina.
Entre as primeiras versões desta ideia e seu lançamento, passaram-se 10 anos. O projeto ficou arquivado em testes primitivos e nas suas anotações e memória. Em 1991 ele levou o projeto de um jogo que criou chamado RoboRally, para a Wizards of the Coast, uma pequena empresa de produção de jogos. O projeto foi considerado complexo demais para as limitações financeiras da pequena empresa de Seattle - porém eles viram o valor de suas ideias e perguntaram se Richard não teria algum jogo mais rápido e simples para apresentar, preferencialmente apenas com cartas. Bem, a ideia já estava lá há anos.
Após um bom tempo de desenvolvimento, Richard Garfield concluiu em 1993 dois projetos: o seu pós-doutorado em matemática combinatória e o novo jogo, inicialmente chamado de "Manaclash", mas que por motivos de direitos autorais, teve que mudar de nome pouco antes da impressão e produção. As primeiras caixas do jogo foram colocadas à venda na Origins International Game Expo em Fort Worth, Texas. Era uma grande aposta. Um jogo novo. Um conceito novo. Magic: the Gathering foi o primeiro jogo de cartas com quatro objetivos: jogo, coleção, troca e venda.
Até então, desde o início do século XX já existia nos EUA a tradição de comprar cartas colecionáveis, as quais tinham valores específicos de venda e troca baseado em sua raridade, oferta e procura. Quem conhece o mercado de colecionáveis americano sabe que esta é uma indústria que chega a movimentar milhões de dólares por ano – e estamos falando de cartas com fotos de jogadores de baseball e afins. A maior aposta do Magic: the Gathering foi trazer justamente este tipo de filosofia de mercado para um jogo de cartas, para um jogo de nerds. Suas cartas poderiam ter um valor, ter uma raridade. E você poderia usá-las para ganhar de seus oponentes. Não, melhor ainda! Montar a SUA própria estratégia!
O jogo se esgotou rapidamente na Origins International Game Expo. A procura em seguida fez com que ele se esgotasse de todas as lojas para as quais foi distribuído em algumas semanas.
Magic: the Gathering era um sucesso absoluto e instantâneo.
Isto aconteceu em Julho de 1993, há mais de 21 anos atrás. Esta primeira edição ficou conhecida como “Alpha Edition”. O primeiro torneio aconteceu na GenCon em Agosto e a final teve como campeão o Alex Parrish. Alguns meses depois, uma nova impressão em Outubro, corrigindo erros da anterior, foi lançada e batizada de “Beta Edition”. Foi feita uma tiragem 3 vezes maior que a anterior, que se esgotou mais rápido ainda. Então no mesmo ano, em Dezembro, foram lançadas a edição “Unlimited” e a expansão “Arabian Nights”, para saciar a busca do mercado pelo jogo. Dá pra imaginar que isso tudo aconteceu em menos 6 meses?
Desde então Richard Garfield criou mais de 20 jogos, alguns grandes sucessos de vendas, outros não tão bem sucedidos, porém não menos brilhantes. Eu particularmente gosto muito do card game de “Battletech”, que em muitos aspectos é um Magic “aperfeiçoado”. “Android: Netrunner”, apesar de novo, já conta com uma legião fiel de fãs. No ramo dos board games, o “King of Tokyo” foi amplamente premiado e elogiado pela crítica, ganhando este ano seu irmão “King of New York”. Ele é um homem bastante reservado e completamente apaixonado por jogos. Está sempre aprendendo e evoluindo, como se pode ver nos jogos que criou, ao longo dos últimos 20 e tantos anos.
Obrigado, Dr. Garfield.
Metagame, WTF?
Gente, não existia metagame na época. Todos os relatos de decks eram completamente loucos e desvairados para os padrões atuais (alguns juram que os decks tinham 19 Black Lotus, 20 Ancestral Recall e 1 Fireball, ou 10 Montanhas e 30 Lightning Bolt – mas até onde sabemos, não passa de lenda urbana). O deck que Alex Parrish usou para ganhar o primeiro torneio em Agosto de 1993 na verdade era bem aggro; pelo único relato existente, ele usou Mon's Goblin Raiders, Unholy Strength, Orcish Oriflamme, Juggernaut, Dark Ritual, Disintegrate, Terror e Stone Rain. Alguns perceberão que o Alex Parrish ganhou este torneio com a primeira "tapetada" de história do jogo também (claro que não foi intencional): na edição "Alpha" a carta Orcish Oriflamme saiu com um erro de impressão: o seu custo era 1R, o que foi corrigido na edição "Beta" para o custo de 3R (um pouco mais justo, não?).
Enquanto isso, em Niterói...
O Magic obviamente não chegou de imediato a Niterói. Em 1993 já funcionava na torre do Niterói Shopping o lendário e saudoso espaço lúdico “Além da Imaginação”, criado por Lucio Abbondati Jr. e Lucia Vasconcellos Abbondati, um verdadeiro oásis para nerds e geeks na cidade. Também é muito difícil conseguir relatos daquela época. Os poucos que teriam cartas em sua posse, as conseguiram em alguma viagem para os EUA. Mas tudo indica que o Magic ainda levaria algum tempo para chegar à terra de Araribóia.

